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Mês de Conscientização sobre a Dor: Repensando a dor na Medicina Veterinária

12 de set.
6 min de leitura

Setembro é o Mês de Conscientização sobre a Dor e temos a oportunidade de refletir mais profundamente sobre o que é realmente a dor e se estamos, de fato, tratando-a em toda a sua complexidade. De acordo com a International Association for the Study of Pain, a dor é definida como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial”. Isso significa que a dor não é simplesmente um sinal nociceptivo que percorre um nervo, mas é também influenciada pelas emoções e é justamente essa dimensão emocional que muitas vezes é negligenciada no manejo da dor na Medicina Veterinária.


As Diretrizes AAHA de 2022 para o Manejo da Dor em Cães e Gatos descrevem a dor ao longo de um espectro que vai desde a dor aguda e adaptativa (isto é, dor nociceptiva e inflamatória, com uma função protetora que leva o animal a evitar novos danos e permitir a cicatrização) até a dor crônica e mal-adaptativa (isto é, dor neuropática e funcional, na qual o próprio sistema nervoso se torna sensibilizado e a dor persiste independentemente da existência de uma lesão tecidual contínua) (Gruen et al., 2022).


Assim, a dor em nossos pacientes animais também é multimodal, pois envolve sistemas físicos, neurológicos e emocionais, que influenciam o comportamento, o humor e a qualidade de vida do animal. E dor crônica é mais comum do que muitos tutores e até mesmo alguns veterinários imaginam. A osteoartrite, por exemplo, apresenta uma prevalência estimada próxima de 40% em cães e superior a 50% em gatos (Gruen et al., 2022). No caso dos gatos, em particular, mestres em mascarar a dor, frequentemente só apresentam mudanças comportamentais sutis ao invés de vocalizações evidentes, e aí a dor pode não ser reconhecida até que a mobilidade, o apetite, a sociabilidade ou o bem-estar geral já estejam comprometidos.


As diretrizes da AAHA enfatizam a necessidade de uma mudança do manejo reativo da dor, focado no simples controle das consequencias, para um cuidado proativo e multimodal, isto é, tratar precocemente, reavaliar com frequência e envolver toda a equipe de cuidado e o tutor como participantes ativos no reconhecimento das mudanças comportamentais relacionadas à dor.


Na prática veterinária convencional, AINEs e opioides normalmente constituem as principais terapias utilizadas nos protocolos de controle da dor (Gruen et al., 2022). Entretanto, uma abordagem verdadeiramente multimodal e holística reconhece que a maioria dos pacientes pode se beneficiar de terapias adicionais.


Por isso, neste artigo, vamos abordar algumas das diferentes ferramentas integrativas que podem ser utilizadas no manejo da dor em nossos pets.


Vamos falar brevemente sobre algumas das minhas favoritas:


Reiki – minha terapia preferida para manejo da dor


O Reiki é uma prática japonesa que apresenta efeitos positivos no manejo da dor, tendo sido demonstrado tanto em pesquisas com seres humanos quanto em estudos veterinários. Por exemplo, o estudo de Pacheco et al. (2021), um ensaio cego, controlado por placebo, realizado com cadelas submetidas à ovariohisterectomia, mostrou que os cães que receberam uma única sessão de Reiki no período pós-operatório apresentaram escores significativamente menores na Glasgow Composite Pain Scale após 4 horas e escores menores na escala visual analógica de dor após 4 e 8 horas, em comparação aos grupos controle e Reiki simulado (“placebo”). Nenhum dos cães do grupo Reiki necessitou de morfina de resgate, em comparação com 30% dos cães do grupo controle e 40% do grupo placebo.


Minha própria pesquisa, outro estudo randomizado, controlado por placebo e cego, onde foram fornecidas seis sessões semanais de Reiki à distância para cães adultos com 8 anos ou mais, também encontrou uma redução estatisticamente significativa da dor relatada pelos tutores após a terceira (P = .05) e a sexta sessão (P = .02), em comparação ao grupo controle. No grupo Reiki, 70,6% dos cães apresentaram melhora excelente ou moderada (Barbieri, 2025, J Am Holist Vet Med Assoc).


E a Homeopatia?

A Homeopatia também pode ser utilizada com sucesso no manejo da dor e, na minha prática clínica, utilizo-a frequentemente, especialmente para dores musculoesqueléticas e pós-operatórias. Entre os medicamentos homeopáticos mais conhecidos está Arnica montana, amplamente utilizada para reduzir inchaço, hematomas e dores musculares profundas após traumas físicos ou esforço intenso. Já para desconfortos articulares, Rhus toxicodendron é frequentemente escolhido para aliviar rigidez e dores artríticas que caracteristicamente melhoram com movimentos suaves, mas pioram durante o repouso. A Ruta graveolens, por sua vez atua especificamente sobre os tecidos conjuntivos, oferecendo alívio para distensões de tendões e ligamentos. Além desses três, também temos Hypericum perforatum, muito útil para dores nervosas do tipo lancinante e Bryonia para dores articulares agudas, agravadas pelo menor movimento.


Nutracêuticos e fitoterapia

Também existe uma grande variedade de nutracêuticos e fitoterápicos que podem oferecer efeitos positivos no manejo da dor. Vou citar alguns dos meus favoritos e dos que mais utilizo com mais frequência:


Palmitoiletanolamida (PEA): este é o meu nutracêutico favorito para o manejo da dor. Trata-se de um mediador lipídico endógeno que modula a atividade dos mastócitos e a neuroinflamação mediada pelas células da glia, mecanismos cada vez mais associados aos estados de dor crônica mal-adaptativa. Segundo Britti et al. (2017), uma formulação combinando palmitoiletanolamida e quercetina reduziu a inflamação e os comportamentos relacionados à dor em modelos de dor inflamatória e osteoartrítica em roedores.


Além disso, outro estudo, realizado com 58 cães por Rocca et al. (2023), demonstrou que a suplementação alimentar com palmitoil-glucosamina co-micronizada com curcumina foi capaz de manter o efeito analgésico induzido pelo meloxicam em cães com dor crônica grave decorrente de osteoartrite.


Curcumina e Boswellia serrata: essas duas substâncias de origem vegetal também vêm sendo cada vez mais utilizadas para o manejo da dor associada à osteoartrite. Um estudo randomizado e duplo-cego realizado em cães por Caterino et al. (2021) constatou que uma combinação de ácido boswélico e Curcuvet®, adicionada a um nutracêutico convencional contendo glucosamina, condroitina e ômega-3, produziu melhorias mensuráveis nas forças de reação ao solo avaliadas por meio de análise da marcha em plataforma de força, quando comparada ao uso isolado do nutracêutico. Os efeitos ainda eram observados 60 dias após o término do tratamento. Na osteoartrite humana, um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com curcuminoides associados ao ácido boswélico demonstrou melhora significativa nos escores WOMAC de dor e função em comparação ao placebo (Haroyan et al., 2018).


Outros suportes para a dor. Os ácidos graxos ômega-3 possuem uma boa base de evidências entre as intervenções nutricionais para a dor associada à osteoartrite em cães (Vandeweerd et al., 2012) e estão formalmente incluídos entre as opções não farmacológicas na árvore de decisão da AAHA. E não podemos esquecer os Florais de Bach, que podem ser úteis no manejo dos estados emocionais relacionados ao processo doloroso e devem ser utilizados de acordo com as necessidades e características individuais de cada animal.


Como podemos perceber, portanto, a dor é muito mais do que um sintoma a ser suprimido. Trata-se de uma experiência complexa que envolve o corpo, sistema nervoso, emoções, comportamento e o ambiente onde o animal vive. Reconhecer essa complexidade nos permite ir além de uma abordagem unidimensional e avançar em direção a um manejo da dor verdadeiramente multimodal. Reiki, fitoterapia, nutracêuticos, Homeopatia e Florais de Bach podem oferecer suporte dentro de um plano terapêutico individualizado, proporcionando a oportunidade de reduzir o sofrimento e melhorar o conforto, contribuindo para uma melhor qualidade de vida.

 

Referências:

  1. Gruen ME, Lascelles BDX, Colleran E, et al. 2022 AAHA pain management guidelines for dogs and cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2022;58(2):55-76. doi:10.5326/JAAHA-MS-7292

  2. Pacheco L, Marangoni M, Rodrigues EO, Pacheco KOM, Freitas GC. Postoperative analgesic effects of Reiki therapy in bitches undergoing ovariohysterectomy. Cienc Rural. 2021;51(10):e20200511. doi:10.1590/0103-8478cr20200511

  3. Barbieri CR. Impact of distant Reiki on owner assessment of health and wellbeing of adult dogs: a blinded, placebo-controlled, randomized trial. J Am Holist Vet Med Assoc. 2025;78:11-19. doi:10.56641/WAGB9632

  4. Caterino C, Aragosa F, Della Valle G, et al. Clinical efficacy of Curcuvet and Boswellic acid combined with conventional nutraceutical product: an aid to canine osteoarthritis. PLoS One. 2021;16(5):e0252279. doi:10.1371/journal.pone.0252279

  5. della Rocca G, Schievano C, Di Salvo A, et al. Palmitoyl-glucosamine co-micronized with curcumin for maintenance of meloxicam-induced pain relief in dogs with osteoarthritis pain. BMC Vet Res. 2023;19(1):37. doi:10.1186/s12917-023-03594-4

  6. Britti D, Crupi R, Impellizzeri D, et al. A novel composite formulation of palmitoylethanolamide and quercetin decreases inflammation and relieves pain in inflammatory and osteoarthritic pain models. BMC Vet Res. 2017;13(1):229. doi:10.1186/s12917-017-1151-z

  7. Haroyan A, Mukuchyan V, Mkrtchyan N, et al. Efficacy and safety of curcumin and its combination with boswellic acid in osteoarthritis: a comparative, randomized, double-blind, placebo-controlled study. BMC Complement Altern Med. 2018;18(1):7. doi:10.1186/s12906-017-2062-z



 
 
 

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