Além do modelo mecanicista: uma nova visão sobre o processo de cura nos animais
- M.V. Claudia Barbieri
- 11 de ago.
- 6 min de leitura
Há alguns dias, eu estava ouvindo uma entrevista em um podcast com um PhD em biologia mitocondrial que dedicou sua carreira ao estudo dessas extraordinárias “usinas de energia” dentro das nossas células. Em determinado momento da conversa, ele disse algo que despertou meu interesse: “Temos nos iludido, ao longo dos últimos cem anos ou mais, acreditando que somos máquinas moleculares, e é nisso que a ciência biomédica se baseia.” Como veterinária holística que trabalha com homeopatia, florais de Bach e fitoterapia, essa frase me deixou muito feliz, porque me fez perceber que algo está mudando na medicina e que, ainda que em um ritmo mais lento, também se vê que a medicina veterinária está passando por essa transformação.
Se existe algo que a prática clínica nos ensina, é que os animais não são máquinas e que aqueles que se recuperam nem sempre são os que apresentam a “melhor” bioquímica nos exames. Existe muito mais por trás disso. A maioria dos animais que atendo são adultos ou idosos, portadores de doenças crônicas ou câncer, que chegam até mim depois de receberem prognósticos pouco favoráveis ou quando as possibilidades terapêuticas convencionais já parecem limitadas. Com muita frequência, a primeira pergunta que recebo é: “Quanto tempo ele tem? Qual é o prognóstico?”. E eu costumo explicar que prognósticos e tempos médios de sobrevivência são, justamente, médias. Eles nos oferecem uma referência baseada em grupos de animais, mas não determinam necessariamente o que acontecerá com aquele indivíduo. Cada animal é único, e sua trajetória pode ser muito diferente daquela descrita pelas estatísticas.
É nesse ponto que começamos a perceber que nem nós, nem nossos animais, somos máquinas. O organismo não responde apenas aos números que aparecem em um exame. Existe uma complexa interação entre corpo, mente, emoções, ambiente e experiências e tudo isso pode influenciar a maneira como enfrentamos uma doença. Isso não significa ignorar a realidade clínica ou negar a importância de um prognóstico. Significa compreender que uma estatística descreve o que acontece em média, mas não necessariamente o que acontecerá com aquele animal. E talvez seja justamente aí que exista uma das partes mais fascinantes da medicina: reconhecer que o organismo tem uma capacidade extraordinária de adaptação e que sua trajetória pode mudar, para melhor ou para pior, dependendo de inúmeros fatores que vão muito além dos resultados de um exame.
É justamente essa complexidade que torna a observação tão importante. Como homeopatas, somos treinados para observar nossos pacientes em todos os detalhes, assim como seu ambiente e suas relações com humanos e outros animais. O biólogo que mencionei também começou a desenvolver suas ideias através da observação, inicialmente ainda criança, acompanhando sua mãe, que era enfermeira e fazia atendimento domiciliar. Ao observar os pacientes dela, percebeu algo que nunca se encaixava completamente no modelo tradicional da doença: algumas pessoas gravemente enfermas se recuperavam, ao contrário de todas as expectativas, enquanto outras, com condições aparentemente “mais leves”, não evoluíam da mesma forma. Claramente, havia algo além da questão molecular e física influenciando o resultado.
Essa história imediatamente me lembrou a trajetória do Dr. Edward Bach, que quando jovem, trabalhando na fundição de latão de seu pai, observou que a solidão e a apatia pareciam prejudicar a saúde de seus colegas de trabalho tanto quanto qualquer exposição física. Ele também percebeu o quanto o medo da doença e suas consequências financeiras pesavam sobre os trabalhadores, às vezes mais do que a doença propriamente dita. Essas observações foram a semente de tudo aquilo que ele desenvolveria posteriormente: a ideia de que a doença não é simplesmente um corpo que deixou de funcionar adequadamente, mas um desequilíbrio do ser como um todo, incluindo o estado mental e emocional. Dois homens, separados por um século, chegando ao mesmo ponto de partida simplesmente por observar com atenção quem realmente melhora.
Nada disso é novidade para aqueles que praticam homeopatia e terapia floral, mas é extremamente significativo ouvir essas ideias sendo refletidas também dentro de um moderno laboratório de pesquisa. Todos os dias, observamos animais cujos sintomas físicos não se encaixam com uma simples análise física: o cão cuja dermatite piora sempre que a família passa por períodos de estresse; o gato que deixa de comer após uma mudança de casa, muito antes que os exames de sangue revelem qualquer alteração evidente; o cão com hipotireoidismo, assim como sua “mãe”; ou o cavalo cuja antiga claudicação retorna após a perda de um companheiro do grupo.
Se tratarmos apenas a “máquina molecular”, ou seja, a articulação inflamada, o intestino reativo, o microbioma desequilibrado, o hipotireoidismo, estaremos considerando apenas metade da história. A outra metade envolve o estado emocional e relacional do animal: medo, luto, insegurança, rompimento de vínculos e até possíveis influências energéticas. É o mesmo território que Bach começou a mapear nas pessoas há quase um século e que alguns pesquisadores atuais estão começando a investigar também em nível celular.
É exatamente por isso que a homeopatia, os Florais de Bach e uma anamnese cuidadosa são tão importantes na nossa prática. Não estamos ignorando a bioquímica, no entanto, entendemos o físico como apenas uma parte de um sistema mais amplo, fundamentalmente adaptativo, relacional e energético e não como a história completa.
O Reiki se encaixa nesse mesmo padrão. Antes considerado algo impossível de ser comprovado, atualmente é oferecido como terapia complementar em diversos hospitais de referência nos Estados Unidos e essa mudança também está refletida na literatura científica. Um recente estudo de viabilidade conduzido pela Dra. Natalie Dyer em uma clínica de oncologia integrativa demonstrou que o Reiki não apenas foi uma prática viável e bem aceita por pacientes oncologicos, mas também foi associado a melhorias em aspectos como dor, ansiedade, fadiga, depressão, bem-estar geral e qualidade de vida. Embora estudos randomizados maiores ainda sejam necessários, pesquisas como essa sugerem que o Reiki contribui para aspectos da recuperação e do cuidado que vão além daquilo que os exames laboratoriais convencionais conseguem medir.
E essa percepção que encontramos na prática clínica começa, pouco a pouco, a aparecer também na pesquisa veterinária. Um estudo randomizado, controlado por placebo, realizado por Pacheco et al. (2021), demonstrou redução da dor pós-operatória e menor necessidade de analgesia com opioide de resgate em cadelas submetidas à ovariohisterectomia e que receberam Reiki. No meu próprio estudo randomizado, cego e controlado por placebo, sessões repetidas de Reiki à distância também produziram reduções significativas da dor em cães, contribuindo para o crescente corpo de evidências científicas na área veterinária. Em equinos, estudos piloto sugeriram possíveis efeitos benéficos em alguns indicadores fisiológicos associados ao relaxamento e ao estresse, embora estudos maiores e adequadamente dimensionados ainda sejam necessários para confirmar esses resultados. Assim como no caso dos Florais de Bach e da homeopatia, o Reiki parece ser especialmente interessante justamente no aspecto central deste artigo - a parte emocional, medo, luto e a desregulação do sistema nervoso - elementos que nenhum exame de sangue consegue capturar completamente.
O que mais me chamou a atenção nessa perspectiva é que ela não está mais restrita ao que costumávamos chamar de “medicina alternativa”. Ela está emergindo também dentro da própria pesquisa biomédica moderna, a partir do trabalho de cientistas cujo dia a dia envolve estudar os processos biológicos mais profundos do organismo. Quando um pesquisador contemporâneo e um médico homeopata inglês da década de 1930 chegam, por caminhos completamente diferentes, à mesma observação, ou seja, de que as emoções, o medo, a solidão entre outros, podem ter um impacto tão importante quanto a própria patologia, vale a pena prestar atenção. Pelo bem dos nossos pacientes, tanto os de duas quanto os de quatro patas.
Para aqueles que trabalham com medicina veterinária holística, isso representa um importante lembrete: na realidade, nunca estivemos tratando apenas de “condições”. Sempre estivemos tratando seres vivos em sua totalidade, seres sencientes, cujos corpos respondem à segurança, à compaixão, ao ambiente e ao medo de maneiras que nenhum exame de sangue consegue explicar completamente. Cem anos após Bach e hoje, em algum laboratório de biologia mitocondrial pelo mundo, a mesma verdade continua emergindo: “A cura não é puramente mecânica e nunca foi.”
Inspiração para este artigo:
Phenomena Healing Podcast.Episode 6: Not a Machine but a Flame | The Biology of Energy at Columbia and Beyond.Con Martin Picard, Richard Hammerschlag e Neil Theise.
Referências:
Bach, E. (1931).Heal Thyself: An Explanation of the Real Cause and Cure of Disease.
Dyer, N. L., Fink, K. E., Chakraborti, S., Cheng, J., Dusek, J. A., & Rao, S. (2026).A Feasibility Study of Reiki Therapy to Improve Symptoms in Cancer Survivors at an Integrative Oncology Clinic.Global Advances in Integrative Medicine and Health.
Pacheco, L., Marangoni, M., Rodrigues, E. O., Pacheco, K. O. M., & Freitas, G. C. (2021).Postoperative analgesic effects of Reiki therapy in bitches undergoing ovariohysterectomy.Ciência Rural, 51(10).
Barbieri, C. R. (2025).Impact of Distant Reiki on Owner Assessment of Health and Wellbeing of Adult Dogs: A Blinded, Placebo-controlled, Randomized Trial.American Holistic Veterinary Medical Association Journal, vol. 78.

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