Quem cuida de quem cuida? A realidade invisível da medicina veterinária e como o Reiki pode ajudar
- M.V. Claudia Barbieri
- há 4 dias
- 6 min de leitura
Todos os anos, no último sábado de abril, o mundo celebra os homens e mulheres que dedicam suas vidas à saúde animal, ao bem-estar público e à segurança alimentar. Celebramos sua compaixão, sua expertise, suas noites sem dormir e seu compromisso inabalável com seres que não podem falar por si mesmos.
Mas hoje quero fazer uma pergunta que raramente é feita:
Quem cuida de quem cuida dos animais?
Escrevo isso não como observadora externa, mas como veterinária. Compartilho a vida nos consultórios, já senti o peso da profissão e já perdi alguns colegas ao longo do caminho… e eles não eram profissionais fracassados… muito pelo contrário… eram colegas respeitados, brilhantes, bem-sucedidos, que escolheram tirar a própria vida. E escrevo isso porque o silêncio já nos custou demais...
Números que não podemos ignorar
Acredito que a maioria das pessoas não tem ideia, porque a profissão veterinária é amplamente romantizada...temos uma “vocação” e nossos pacientes são adoráveis… e isso é verdade… mas existe o outro lado…os desafios diários, os casos de maus-tratos, a pressão dos tutores e das instituições, os baixos salários, as longas jornadas de trabalho e a falta de reconhecimento, entre muitos outros fatores…
Essa não é uma profissão em crise porque os veterinários são fracos mas sim porque o peso que carregamos é extraordinário e, em grande parte, invisível para o mundo externo.
Vocês sabem que adoro números, então vou citar aqui alguns dados que dão dimensão ao que estou falando:
Veterinários têm de 2 a 4 vezes mais probabilidade de morrer por suicídio do que a população geral e o dobro em relação a outros profissionais da saúde (CDC, 2019).
Veterinárias têm um risco 3,5 vezes maior do que mulheres da população geral; colegas do sexo masculino tem 2,1 vezes maior.
Aproximadamente 80% dos veterinários enfrentam depressão em algum momento da carreira.
Em um estudo norte-americano com mais de 11.000 veterinários, 31% relataram episódios depressivos e 17% já experimentaram ideação suicida após a graduação.
Uma pesquisa mostrou que 89,1% consideram o suicídio um dos problemas mais críticos da profissão, e 92% identificam o estresse como uma preocupação significativa.
Quase 50% relatam insatisfação com a carreira, e mais da metade não recomendaria a profissão a outras pessoas.
Esses não são apenas números. São nossos colegas e amigos, pessoas que entraram nessa profissão por amor aos animais e que, anos depois, se encontram completamente esgotadas.
Por que nosso trabalho é tão profundamente desgastante
Pessoas de fora da profissão muitas vezes imaginam que nossas vidas são cheias de filhotes fofos e tutores agradecidos. Isso até é verdade, há alegria, mas também existe uma realidade muito diferente que acontece por trás das portas das clínicas e hospitais veterinários, uma realidade sobre a qual raramente falamos e vou citar algumas aqui...
Maus-tratos e abuso animal. Vemos negligência, sofrimento e abuso em formas que a maioria das pessoas nunca encontrará, e carregamos essas imagens conosco, pois elas não desaparecem simplesmente ao final do turno.
Pressão dos tutores. Em momentos de dor, tutores podem se tornar hostis, acusatórios ou agressivos. Somos alvo de gritos, ameaças e ataques enquanto tentamos manter a calma e o profissionalismo pelo bem do animal à nossa frente.
Realização de eutanásia. Todos os meses, veterinários encerram vidas. Com compaixão, com misericórdia mas ainda assim encerram e lá no fundo fica aquele questionamento...eu não estudei para isto... O peso emocional disso, repetido ao longo de uma carreira, deixa marcas, sem dúvida.
Desvalorização. Em uma sociedade antropocêntrica, cuidamos de “apenas animais”. Nossa formação é tão longa e rigorosa quanto a de um médico humano, e ainda assim nosso trabalho é constantemente desvalorizado financeiramente, socialmente e culturalmente. Essa desvalorização contínua corrói, com o tempo, o nosso senso de valor pessoal.
Responsabilidade com os nossos próprios animais. Quando o paciente é também o nosso próprio animal de estimação, o peso emocional torna-se ainda mais intenso. Não somos apenas veterinários a tomar decisões clínicas, somos também tutores profundamente ligados emocionalmente ao paciente. A responsabilidade é dupla: profissional e pessoal. O medo de errar, de não fazer o suficiente ou de não conseguir salvar o nosso próprio animal amplifica a pressão de forma significativa. Nesses momentos, a objetividade clínica mistura-se inevitavelmente com o vínculo afetivo, e cada decisão carrega um peso emocional ainda maior do que o habitual.
Acesso a meios letais. Esta é talvez a verdade mais difícil de escrever. Pesquisas mostram que, quando o pentobarbital, um medicamento utilizado na eutanásia, foi excluído dos dados de mortalidade, a taxa de suicídio entre veterinários praticamente desapareceu. Veterinários não morrem por suicídio em taxas mais altas apenas porque são mais deprimidos. Eles morrem porque, em um momento de crise, têm acesso imediato a uma substância que é rápida e letal. Um momento de desespero, que em outra pessoa poderia passar, torna-se definitivo.
Eu perdi alguns colegas por suicídio e eram pessoas que eu conhecia, respeitava e admirava. E todas as vezes, a minha reação era a mesma:“Mas eles eram tão competentes… tão bem-sucedidos… pareciam bem.”
E esse é um ponto extremamente importante - não eram pessoas que estavam falhando na profissão...ao contrário, eram profissionais respeitados, alguns até bastante conhecidos na sua área de atuação. As mesmas características que os tornavam veterinários excepcionais, ou seja, o perfeccionismo, senso de responsabilidade, dedicação profunda e dificuldade em demonstrar vulnerabilidade, eram também as que tornavam pedir ajuda algo quase impossível.
O estigma em torno da saúde mental na nossa profissão é profundo, pois somos treinados para ser aqueles que têm respostas para tudo, que permanecem firmes em emergências, que ajudam e a ideia de admitir que somos nós que estamos nos afogando pode parecer um fracasso profissional, o que não é verdade e nunca foi.
O Reiki na prática diária
Quem acompanha meu trabalho sabe que o Reiki para animais é o meu principal foco e minha grande paixão. Eu acredito profundamente na sua capacidade de promover cura, calma e bem-estar nos nossos pacientes. Mas hoje quero mudar a direção desse olhar....porque antes de estarmos plenamente presentes para os nossos animais, sejam nossos pacientes ou nossos próprios pets, precisamos estar presentes para nós mesmos.
O Reiki é uma técnica energética japonesa que promove a capacidade natural do corpo de encontrar equilíbrio e promover a autocura. E seria transformador se os veterinários pudessem utilizá-lo, antes de tudo, para sua própria cura porque precisamos primeiro cuidar de nós mesmos para depois cuidar dos outros.
Imagina como seria se clínicas e hospitais veterinários começassem a integrar o Reiki na cultura diária? Não como um luxo, mas como uma ferramenta real de bem-estar para a equipe? Uma autoaplicação breve antes de uma eutanásia.Um momento de silêncio após um caso traumático ou uma breve meditação antes de iniciar o turno. Reiki é uma prática acessível a todos, do cirurgião ao pessoal da recepção...
Isso significaria trazer uma abordagem mais humana para uma profissão que, por muito tempo, operou sob a ideia de que precisamos simplesmente suportar. Significaria reconhecer que a fadiga por compaixão é real, que o acúmulo de dor é real e que o custo emocional do nosso trabalho merece atenção e cuidado. Quando nos sentimos apoiados, levamos uma mais qualidade para o nosso trabalho, pois ficamos mais calmos, tomamos decisões mais claras e nossa capacidade de compreensão, tanto com os animais quanto com seus tutores se aprofunda. Um veterinário emocionalmente equilibrado e tranquilo não é apenas uma pessoa mais saudável, mas também um veterinário melhor.
Não estou dizendo que o Reiki, sozinho, seja a solução para uma crise sistêmica. É certo que nossa profissão precisa de mudanças estruturais, com melhores condições de trabalho, salários mais justos, políticas que limitem o acesso não supervisionado a medicamentos letais e uma mudança cultural que reconheça a importância do trabalho que realizamos todos os dias. Mas acredito que o Reiki pode ser parte da resposta, pois é uma ferramenta acessível, suave e profundamente restauradora. Vale lembrar que Já é utilizado na saúde humana, e existem inúmeros estudos sobre seus benefícios para profissionais da área da saúde, como as equipes de enfermagem e os próprios médicos.
O Reiki é algo que podemos aprender e levar conosco, praticando a autoaplicação em momentos que, de outra forma, seriam simplesmente absorvidos pelo corpo como mais uma camada de estresse acumulado.
Neste Dia Mundial do Veterinário, gostaria de deixar uma mensagem aos meus colegas:
Nós não somos apenas profissionais habilidosos, somos seres humanos que sentem profundamente, que carregam muito e que merecem cuidado em troca de todo o cuidado que oferecem. Por isso, devemos nos permitir a oportunidade de nos curar e receber apoio.E, se fizer sentido para vocês, permitam-se conhecer o Reiki.





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